Busca por bicos para completar a renda cresce entre os catarinenses

Fatores como momento econômico e queda no poder de consumo fazem mais pessoas recorrerem a outras atividades

Quando percebeu que o salário de vendedor de máquinas industriais já não era suficiente para manter o mesmo padrão de vida, Robson de Moura, 43 anos, sentiu que poderia aproveitar o tempo livre à noite para obter uma segunda fonte de renda. Encontrou a saída em uma atividade que não fazia há 15 anos.

Há pouco mais de 10 meses, ele começou a trabalhar como barman em uma casa noturna no bairro Victor Konder, em Blumenau.

Robson é um exemplo de um perfil de trabalhador que está em crescimento no país inteiro.

Pesquisa divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) mostra que o número de brasileiros que recorreram a alguma forma de trabalho extra ou aos famosos “bicos” para complementar a renda cresceu de 57%, no primeiro semestre de 2017, para 64%, no mesmo período deste ano. Nas classes C, D e E, esse número é ainda maior, chegando a 70%.

No caso de Robson, a decisão deu certo. Segundo ele, o valor recebido no “bico” chega a cerca de 60% do rendimento principal com as vendas de máquinas. Renda que ajuda a manter o padrão de vida e a criar o filho, de sete anos.

O difícil é conciliar as duas atividades. De três a quatro vezes por semana, o vendedor trabalha até de madrugada no bar, mas no dia seguinte precisa estar de pé às 8h para cumprir a agenda diária de vendas.

– Claro que é por necessidade, se eu pudesse ter uma única atividade, optaria por isso, mas a adaptação (ao segundo trabalho) foi rápida. Era algo que já tinha feito na juventude e que me sinto muito bem fazendo – conta.

Mudança de ramo e nova fonte de renda

A adaptação foi tão rápida que até inspirou Robson a mudar de ramo. Ele deixou o cargo de vendedor nos últimos dias depois de oito anos. Vai atuar com atendimento ao público no bistrô de um novo hotel em Blumenau.

Como o trabalho será à noite, as jornadas de barman devem terminar. Mas isso não significa que ele pretenda deixar para trás a ideia de ter duas fontes de renda.

– Como vou ter a maior parte do dia livre, com certeza vou tentar inventar alguma atividade comercial que possa exercer durante o dia – projeta.

A mesma pesquisa do SPC Brasil e da CNDL aponta que metade dos brasileiros acredita que as condições da economia pioraram este ano em comparação com o ano passado. Dos entrevistados, 44% relataram que houve piora na condição financeira em relação a 2017

– Sinto que minha situação só melhorou por causa dessa decisão de ter uma segunda atividade – avalia Moura.

Conciliação de atividades virou saída

Durante todo o ano passado, Diogo Nunes, 29 anos, conciliou o trabalho de professor de Informática em escolas públicas de Blumenau com o de motorista de aplicativo.

Saía das aulas por volta das 17h e, desse horário até às 22h, complementava a renda com as viagens. Este ano, o morador do bairro Vila Nova não conseguiu vaga como professor, mas ingressou em um curso de programação que frequenta pelas manhãs.

Às tardes ele continua dedicando as rotas por aplicativo. Mas Diogo também começou a trabalhar com conserto e manutenção de computadores e smartphones.

É essa atividade que ele pretende transformar em principal fonte de renda, deixando o dinheiro do transporte individual apenas para as horas livres.

– Sou casado, tenho filho de um ano, contraímos algumas dívidas e estamos correndo atrás. Acho que essa alternativa (dos “bicos” como forma de renda extra) tem atraído muita gente, o custo de vida está alto e a única forma de correr atrás dos sonhos é tendo que se desgastar um pouco mais para ter alguns luxos, digamos assim – avalia Nunes.

No caso de Katlyn Schulz e Amilton Franco Junior, foi um objetivo bem claro que fez os dois aderirem a uma atividade extra: o casamento. Há quase três anos, ela quebrou o pé e precisou se afastar temporariamente do trabalho de professora de educação infantil.

Os dois aproveitaram para aperfeiçoar o trabalho com artigos de decoração para festas infantis, que passou a fazer sucesso entre os amigos.

Eles compraram uma máquina de corte, Amilton passou a conciliar o trabalho de manutenção dos elevadores com a nova atividade, assim como Katlyn se divide entre as aulas e a produção de copos personalizados, topos de bolo e outros artigos.

As noites e fins de semana dedicados ao trabalho em casal já valeram a pena. Há um mês eles passaram a morar juntos no novo apartamento e agora se preparam para a festa de casamento.

O professor do Departamento de Economia da Furb, Ralf Marcos Ehmke, explica que a alta taxa de desemprego fez muitos profissionais precisarem aceitar remunerações menores do que as anteriores para se recolocarem no mercado.

Em função disso, a saída muitas vezes é buscar uma segunda atividade no tempo extra para manter o mesmo padrão. A pesquisa apresenta apenas dados nacionais e, segundo o professor, reflete melhor o cenário nas regiões metropolitanas, onde o desemprego tem sido mais sentido.

Ainda assim, mesmo que o saldo de vagas em Blumenau ainda tenha sido positivo nos últimos meses, a tendência de adesão a uma segunda fonte também aparece na cidade:

– Há muitas oportunidades pela internet, a informação chega ao público. Mas não dá para indicar que isso vai crescer.

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