Blumenauense descreve 12 novas plantas e encontra duas espécies consideradas extintas

Nas terras da antiga colônia Blumenau onde Fritz Müller desbravou e analisou a natureza no século 19, avanços do estudo da natureza foram possíveis. Depois, nomes como Fritz Plaumann, Padre Raulino Reitz e Roberto Klein varreram as terras de Santa Catarina no século 20 e catalogaram grande parte da fauna e flora do Estado em sua pluralidade do Litoral ao Oeste, passando pelos vales e serras.

Um trabalho de curiosos natos e de olhar apurado que conseguem identificar diferenças em meio ao verde e, nos mínimos detalhes, descrever novas espécies que ainda eram desconhecidas ou passavam despercebidas.

É essa curiosidade de conhecer o que vê e saber identificar espécies que move Luís Funez, blumenauense de 27 anos que tem se especializado em encontrar plantas que ainda não eram descritas no solo catarinense.

Desde 2015, o biólogo já encontrou e catalogou 12 novas espécies e redescobriu outras duas que nunca mais haviam sido encontradas – caso de uma de suas maiores descobertas, a Saranthe ustulata, planta descrita originalmente por Fritz Müller em meados de 1890 e considerada extinta desde o século passado, até ser reencontrada por Funez em Apiúna.

A Saranthe não havia sido a primeira descoberta de Luís. Antes, em 2015, ele havia feito o primeiro registro de nova espécie: a Commelina catharinensis, pequena planta rara, que corre risco de extinção, é encontrada na região da Praia do Sonho, em Palhoça.

De lá para cá foram tantas excursões voluntárias do biólogo para matas catarinenses, incontáveis exemplares recolhidos e uma coleção de novidades que não para de crescer. Entre as mais recentes está uma nova espécie de orquídea, exclusiva de Rodeio, e considerada por Funez um de seus maiores trunfos até hoje pela dificuldade em encontrar uma nova orquídea.

— O processo é extremamente complexo. A gente tem uma diversidade muito grande no Brasil, vários gêneros. Primeiro tem que achar a planta, passar em trabalhos de outros autores, revisões do gênero, da família, etc. Vai filtrando, comparando e vendo as particularidades. A gente vai afunilando até sobrar só as características dela. Se não se encaixa em nada descrito até hoje, então é uma planta nova — explica o pesquisador.

Para aprofundar as pesquisas, Funez busca parceiros de universidades de outros lugares do Brasil e até do exterior. Eles ajudam o blumenauense na busca por bibliografias que nem sempre estão acessíveis na região. Com tudo pesquisado e escrito, os artigos são encaminhados para publicações internacionais e então as plantas ganham um nome oficial e definições.

Maioria das descobertas corre risco de extinção

Pesquisas recentes do Inventário Florístico-Florestal de Santa Catarina apontam que pelo menos um quinto das espécies levantadas por pesquisadores catarinenses 50 anos atrás não são mais encontradas atualmente. Além disso, 32% delas ainda existem nos locais descritos, mas com menos de 10 indivíduos em todo o Estado, em sério risco de desaparecer.

Localizadas em pontos extremamente específicos e em condições próprias, boa parte das descobertas de Funez está em processo de extinção. Não fosse o trabalho dele, algumas delas talvez deixariam de existir antes mesmo de serem descritas.

A Phyllanthus eremitus, por exemplo, ocorre só no Eremitério de Rodeio. Ela cresce debaixo de uma caverna natural, que tem um solo arenoso, quase não pega chuva e nem sol diretamente. Ela tem uma coloração avermelhada, uma planta bem diferente. Ela só ocorre ali nesse espaço de no máximo 15 metros quadrados. Naquela área contabilizamos 30 indivíduos adultos dessa espécie. É extremamente restrita e a falta de divulgação pode acarretar na extinção de uma espécie inteira se aquele terreno sofrer alguma interferência, conta.

O risco de extinção também existe pois as plantas estão em terrenos que não fazem parte de parques ou áreas de preservação, algo que as descobertas de Funez podem incentivar caso haja interesse na preservação da espécie. O ecólogo e especialista Lauro Bacca – que foi homenageado no nome de uma das novas plantas (confira a lista na página ao lado) –, avalia que o primeiro passo é preservar as características dos ambientes em que essas novas plantas foram encontradas, com restrições às alterações na vegetação do local.

Potencial medicinal ainda não foi estudado 

As excursões de Luís Funez trouxeram tantas outras plantas além das novidades registradas por ele que vão parar no herbário da Furb, em Blumenau. Das 59 mil plantas que o espaço tem atualmente, cerca de 7 mil foram coletadas pelo biólogo. Uma delas é uma planta que Funez ajudou a catalogar junto de um pesquisador paulista.

O blumenauense encontrou um exemplar em Santa Catarina e o colega de São Paulo já estava a pesquisando no Sudeste. Ele doou a planta que achou e o outro pesquisador a registrou e descreveu.

Ao mesmo tempo, sem que os dois soubessem, em uma universidade na Dinamarca um grupo estava estudando exatamente plantas dessa espécie e os compostos para fins medicinais. A novidade encontrada no Brasil foi enviada para os dinamarqueses e a pesquisa aponta avanços promissores no uso de compostos da planta em remédios contra o câncer.

O caso é um bom exemplo para mostrar outra importância das descobertas do blumenauense. Nenhuma das novidades catalogadas por Funez foi estudada até agora.

— Sabemos que as Phyllanthus têm se mostrado plantas medicinais excepcionais, por exemplo. Vai saber quais tipos de compostos elas têm? Nenhuma dessas plantas aqui teve a química delas estudada, então vai saber o que elas podem guardar? — sinaliza o biólogo.

Além da parte medicinal, há também entre as descobertas o potencial ornamental de algumas, como a orquídea ou a Saranthe ustulata, prima dos caetés, que pode ser usada para ornamentação. A última foi plantada em um canteiro perto do herbário na Furb.

Para o biólogo Lauro Bacca, o trabalho de pesquisadores como Funez é essencial na descoberta da flora catarinense e serve como base para outro avanços possíveis após o estudo aprofundado:

— Descobrir e inventariar o que temos é o primeiro passo. Depois vêm os estudos fisiológicos, fenológicos, ecológicos, de ciência aplicada, como levantamentos de compostos de interesse medicinal e farmacêuticos. Sem saber o que temos através da descoberta de espécies e de sua conservação, será difícil seguir com outros estudos.

Foto: Arte DC

Fonte: Jornal de Santa Catarina | Foto: Patrick Rodrigues

 

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